“O Globo” cita nomes de várias esposas de políticos tradicionais em busca de protagonismo. Efeito pode ser contrário

Com a alegação de que defende uma maior presença feminina nos espaços políticos eleitorais, ocupando vagas e mirando votos, alguns governantes, muito mais interessados em se perpetuar no poder, mesmo que indiretamente, já lançam as candidaturas de esposas, filhos, irmãos ou qualquer um que possa representar o que se viveu em um passado em todas as regiões do Brasil e se convencionou chamar de “coronelismo”.
Ou seja, o mandatário de ocasião, muitas vezes impedido ou com a necessidade de não estar à frente do poder de decisão, coloca aquele (ou aquela) que não apenas o representa, como também cumpre com sua vontade, exercendo um mandato eletivo.
Uma reportagem do jornal O Globo, no fim de semana passado, traduz com exatidão essa realidade, ao observarr que 2026 promete trazer o protagonismo a mulheres de políticos que buscam se lançar no pleito deste ano. Ainda que isso possa ocorrer por meio aconteça do voto popular.
Trata-se do exercício mais democrático que existe, mas que tem lá suas falhas, como o imperialismo do capital financeiro e do poder político, que a legislação eleitoral limita com impedimento de parentes disputarem eleições quando quem está no exercício do mandato seja direta ou indiretamente parente de primeiro, segundo e terceiro graus ou cônjuge.
A reportagem revela a possibilidade de disputa de cargos eletivos, nas eleições deste ano, por pessoas diretamente ligadas aos atuais detentores de poder e, até mesmo, de que está fora do processo político. No caso mais emblemático, o de Michele Bolsonaro (PL), esposa do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL), que cumpre pena de 27 anos por tentativa de golpe de Estado.
A ex-primeira-dama do país é apontada como nome mais forte para disputar uma das duas vagas para o Senado pelo Distrito Federal, que já tem como senadora uma ex-ministra de Bolsonaro, Damares Alves (Republicanos), que se encontra na metade do mandato de oito anos.
No caso de Mato Grosso, a primeira-dama, Virgínia Mendes, é citada como um dos quadros com potencial para uma eventual disputa por uma vaga na Câara Federal.
Apesar de não ser novidade a disputa de esposas de políticos. Um caso que pode ilustrar essa realidade é o de Thelma de Oliveira, viúva do ex-governador Dante de Oliveira e que foi deputada federal e prefeita de Chapada dos Guimarães (67 km ao Norte de Cuiabá).

A cuiabana Marina Cândia é cotada para disputar o Senado pelo Estado de Alagoas. Ela é primeira-dama de Maceió
O mesmo aconteceu com Celcita Pinheiro, viúva de Jonas Pinheiro (antigo DEM), que foi senador e deputado federal por Mato Grosso e padrinho político de Blairo Maggi (PP) e um dos mais influentes políticos perante o agronegócio. Celcita foi, por três vezes, deputada federal.
Outro nome que chama a atenção, até pelo lapso temporal diante dos seis mandatos do marido, o senador Jayme Campos (União), é o da ex-prefeita de Várzea Grande, Lucimar Sacre de Campos, que se tornou referência política em administração pública e um nome sempre lembrado para eventuais novas eleições.
A reportagem de O Globo cita que a provável candidatura de Virgínia Mendes para deputada federal tem sido incentivada por políticos do Estado. Entre eles, está o presidente da Assembleia Legislativa, Max Russi (PSB), que declarou apoio.
Virgínia, no entanto, considera “cedo” para se discutir o assunto. Sendo sim ou não, afirma que terá o apoio do marido.
“O Mauro sempre apoiou meu trabalho social. Tenho certeza de que continuará me apoiando em qualquer missão”, disse.
O jogo de cena está no fato de que o governador Mauro Mendes usa o nome da esposa para pressionar aliados e adversários, apostando que pode jogar pesado na eleição da esposa para deputada federal ou estadual.
As ações de Mauro Mendes podem ser interpretadas de várias maneiras. O fato da necessidade de ter alguém da família com poder político, ainda mais após dois mandatos de governador de Mato Grosso, com uma alta avaliação e, até mesmo, uma “rota de fuga” para que ele conclua seu mandato e não dispute as eleições deste ano.
Como amplamente divulgado, o atual chefe do Palácio Paiaguás é citado como “nome certo” para uma das duas vagas para o Senado por Mato Grosso, condição que rachou o grupo político do União Brasil, que tem duas forças políticas antagônicas: o senador Jayme Campos, em fim de mandato de oito anos e que já colocou seu nome como candidato ao Governo do Estado, e o próprio Mauro Mendes, que se antecipou e escolheu seu vice, Otaviano Pivetta (Republicanos), como seu sucessor natural.
A escolha de Mauro que foi precipitada e o obrigou a colocar publicamente que seu candidato é Pivetta, mas não contava com a dissidência dentro do partido, que se federalizou com o Partido Progressista, formando a Federação União Progressista.
Mesmo sabendo a força que representa o cargo de governador perante os prefeitos, vices, vereadores, deputados estaduais e federais e filiados, já que o União Brasil é o maior partido de Mato Grosso com quase 70 mil filiados, uma ruptura por causa de uma disputa entre um candidato da sigla e um candidato de outro partido tenderia a deixar um rastro que pode comprometer o futuro das eleições de 2026.
Basta lembrar que, em 2018 e 2022, quando Mauro Mendes liderou as disputas, as vitórias vieram porque a maioria dos partidos e os melhores nomes faziam parte da cligação que os elegeu e reelegeu.
O flerte do governador com o poder político já construiu, assim como destruiu muitas carreiras no passado. Tanto que que se grupo é assombrado pela derrota do então indestrutível e primeiro governador reeleito da história moderna de Mato Grosso, Dante de Oliveira, que, após dois mandatos, deixou o cargo com mais de 70% de aprovação e se viu derrotado na busca por uma cadeira no Senado.
A semelhança da disputa de 2002 com a de 2026 pode não ser mera coincidência.
Outra candidatura que está colocada, e assim como Virgínia Mendes se trata de uma primeira-dama e que tem tudo a ver com Mato Grosso, está exatamente a 2.925 km de distância – lá no Estado de Alagoas.
A capital, Maceió, é administrada por JHC (João Henrique Caldas), do Pl bolsonarista, que é nome forte para disputar o Governo do Estado, mas que teria feito acordo com o PT de Lula e, agora, pretende lançar sua esposa, Marina Cândia, como candidata a uma das duas vagas para o Senado.
Essa vagas são disputadas pelo senador Renan Calheiros, de ex-governador de Alagoas, com avaliação superior ao presidente Lula; Renan Filho, que mesmo estando na metade do mandato de senador e um dos principais nomes do Governo Lula, pode disputar o Governo do Estado para ajudar o pai a conquistar seu quinto mandato de senador por Alagoas.
Renan Calheiros foi deputado estadual, deputado federal, ministro da Justiça e é senador desde 1995. Ocupou a presidência do Senado por três vezes e tem pela frente um duro adversário, o ex-presidente da Câmara dos Deputados e um dos políticos mais influentes dos últimos anos, Arthur Lira (PP).
Essa polarização fez surgir a cuiabana Marina Cândia, filha do empresário da construção Mário Cândia, que foi secretário de Estado no Governo Júlio Campos.
Marina Cândia se casou com JHC e agora aparece como um dos nomes que podem colocar em xeque a vitória de qualquer um dos políticos mais tradicionais de Alagoas. JHC é de família tradicional em política, mas é um político novo e com expressivos resultados à frente da Prefeitura de Maceió.
Por fim, tem-se também a primeira-dama de Goiás, esposa do governador Ronaldo Caiado (União), que tem afinidades tanto com o senador Jayme Campos como com o governador Mauro Mendes, que é natural da cidade goiana de Anápolis.
Gracinha Caiado já tratou sua candidatura com naturalidade e como uma decisão tomada, o que deixa margem a outra interpretação. Ou seja, o esposo e governador de Goiás, Ronaldo Caiado, também sem segundo mandato e com uma das melhores avaliações do país, se coloca como opção diante da impossibilidade de o ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) disputar a Presidência da República.
Caiado sendo candidato a presidente da República, o governador Mauro Mendes ao Senado e o prefeito JHC a governador, eles, ao mesmo tempo que atraem nomes que desejam pegar carona em suas candidaturas, bem como nas candidaturas de suas esposas, também fecham as portas para os aliados, que passam a contar com uma vaga a menos para o Senado, para a Câmara Federal ou para a Assembleia Legislativa.
Eleições proporcionais funcionam como escada: os mais votados ajudam a conquistar mais vagas e eleger mais aliados. Só que, em determinados casos, a preferência exacerbada acaba afugentando eventuais aliados, que podem encontrar melhores chances em outros partidos.













