Abilio atrasa pagamentos para órfãos de feminicídio em Cuiabá: “Tia, acabou a mistura”

Os atrasos se tornaram tão comuns que o último pagamento, neste mês, ocorreu apenas nesta quinta-feira (18).

Flaviane Cristina Souza de Lana, 37 anos, tem um jeito carinhoso de se autodescrever para quem não a conhece: “Eu sou a branca de neve com seus sete anões”, diz ela, de maneira tímida, ao contar para a reportagem do PNB Online quem são seus sete anões: quatro são seus filhos e outros três são da irmã dela, Fernanda Regina Souza de Lana, vítima de um feminicídio que deixou três filhos órfãos, em outubro de 2021.

As três crianças, que Flaviane não hesita em chamar de filhos, são beneficiados do Programa Solidariedade Ação, criado em 2019 para garantir o pagamento de benefício para órfãos de feminicídio na capital mato-grossense. O programa vem sofrendo atrasos recorrentes na gestão do atual prefeito de Cuiabá, Abilio Brunini (PL).

Atrasos na gestão Abilio

Segundo as famílias assistidas pelo programa, Abilio começou a atrasar de forma frequente os pagamentos há cerca de quatro meses. Na gestão anterior, os pagamentos caíam nas contas dos responsáveis entre os dias 5 e 10 de cada mês. Agora, os depósitos são feitos em atraso, com casos de pagamento até no dia 18 do mês.

Os atrasos se tornaram tão comuns que o último pagamento, neste mês, ocorreu apenas nesta quinta-feira (18), depois das famílias ameaçarem procurar a imprensa.

As dificuldades financeiras levam Flaviane a sofrer escutando os lamentos dos filhos por conta de problemas com a falta de dinheiro em casa.

“Dói a gente escutar: ‘tia, se a senhora não tivesse tanta criança, se a gente não fosse responsabilidade da senhora, a senhora não estava passando por tudo isso. Esse mês que atrasou o benefício a minha filha falou: ‘Mãe, acabou o gás’. Aí meu sobrinho falou assim: ‘Tia, acabou a mistura’. E você vai fazer o quê?”, conta Flaviane.

Ela explica que por se dedicar exclusivamente às sete crianças tem dificuldade até para conseguir onde morar, pois muitos locadores dizem que com tantas crianças o imóvel alugado vai se deteriorar. Além disso, o dinheiro que recebe – um salário mínimo para cada criança, totalizando cerca de R$ 4 mil – não é o suficiente para pagar uma babá ou cuidadora.

Cobrança da secretária

Os atrasos reiterados do pagamento na gestão Abilio fizeram até a secretária municipal da Mulher, a tenente-coronel Hadassah Suzannah Beserra de Souza, cobrar a própria Prefeitura pelos pagamentos. Em ofício enviado na última sexta-feira (12) à secretária municipal de Assistência Social, Direitos Humanos e Inclusão, Hélida Vilela de Oliveira, a coronel lembrou da importância do programa e reclamou dos atrasos.

“Considerando a relevância social do projeto e o impacto direto que tal atraso pode causar no sustento e bem-estar das crianças beneficiárias, solicitamos informações acerca do motivo do atraso, bem como previsão para a regularização dos pagamentos”, diz trecho do ofício obtido pela reportagem do PNB Online.

Flaviane diz que os atrasos não ocorriam na gestão anterior e que começaram este ano. Ela afirma que a cada mês as famílias sofrem com a aflição se vão receber ou não o benefício.

“Às vezes, quando atrasava um dia, a gente mandava a mensagem: ‘Olha, não caiu’ e diziam: ‘Não, espera aí, só um pouquinho’. Às vezes era questão de 20 minutos caía ou o mais tardar no outro dia já estava na conta, então a gente não tinha esta preocupação”, conta.

Disputa pela guarda e medo do assassino

“A branca de neve”, como Flaviane gosta de se autodenominar, teve que disputar na Justiça a guarda dos filhos e sobrinhos, que ficaram em um lar infantil até que a Justiça decidisse se ficaria com ela ou com o ex-marido da vítima, pai de duas das três crianças, que não teve relação com o crime. Os pequenos escolheram, por conta própria, ficar com a tia.

“Várias mulheres, pessoas até da Justiça, me falavam: ‘você é guerreira, eu não pegaria, eu não ficaria’, mas eu lutei até o fim pelos meus filhos, eu não desisti, e quando veio esse projeto foi uma providência divina. Eu não tive como sofrer a dor do luto”, conta.

A mãe de sete filhos conta que depois da morte da irmã viveu com medo do assassino procurá-la. O criminoso ficou foragido durante um ano até ser preso e condenado, em agosto do ano passado, a 20 anos de prisão.

“Eu tinha que me esconder, eu tinha medo de alguém dele ver, dele pegar minhas filhas ou querer matar ou querer ir atrás, entendeu? Então, eu vivi um pesadelo horrível da minha vida”, conta ela, que até hoje teme que o assassino saia da prisão.

O que diz a Prefeitura de Cuiabá

A reportagem procurou a assessoria de imprensa da Prefeitura de Cuiabá, que enviou nota para a redação. Veja abaixo:

Nota

A Prefeitura de Cuiabá, por meio da Secretaria Municipal da Mulher, informa que o pagamento do benefício Solidariedade em Ação, destinado a crianças e adolescentes órfãos em decorrência do feminicídio, foi efetuado nesta quinta-feira (18). Inicialmente, o repasse estava previsto para o dia 10 de setembro. No entanto, devido a problemas técnicos, o pagamento precisou ser reprogramado para esta quinta-feira.

Atualmente, 20 menores são contemplados pelo benefício Solidariedade em Ação, que concede auxílio no valor de um salário mínimo a cada criança órfão do feminicídio. Esse valor representa um custo anual de R$ 364 mil.

O Projeto Solidariedade em Ação integra o Programa Cuidando da Gente, criado pela Lei Municipal nº 6.467, de 22 de novembro de 2019, e regulamentado pelo Decreto nº 9.446, de 2 de dezembro de 2022.

Ao todo, 23 menores já foram contemplados pelo benefício. Desses, três foram desligados do programa após completarem 17 anos e 11 meses, idade máxima estabelecida para o recebimento do auxílio.

Fonte: PnbOnline

https://pnbonline.com.br/abilio-atrasa-pagamentos-para-orfaos-de-feminicidio-em-cuiaba-tia-acabou-a-mistura/

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