Mentira infantil: onde a verdade oferece insegurança e medo, a mentira será sempre uma opção

Vou te contar uma história comum em algumas casas: outro dia, uma criança bonitinha saiu para brincar com os amigos do quarteirão. Ela correu, pulou, gritou, deu risada e, de repente, caiu. Caiu feio. Bateu a cabeça numa pedra e não contou para nenhum adulto, embora soubesse que não havia sido uma queda qualquer. Ela sabia que precisava contar, mas tinha tanto medo que combinou o seguinte com o coleguinha: “Se eu ficar doente, você conta que bati a cabeça”. Ela chorou escondido, sentiu dor escondido, teve medo escondido e passou dias escondendo o machucado entre os cabelos. Ela sabia que precisava de cuidados, mas tinha medo de contar.

Aquela criança bonitinha mentiu porque a verdade nunca foi algo muito seguro na casa dela, e mentir passou a ser instrumento de autopreservação. Havia uma luta interna naquela cabecinha: “Se eu conto, eu levo bronca, posso até apanhar… Se não conto, ninguém fica sabendo e eu não preciso deixar minha família triste”. Ela correu o risco.

Já na vida adulta, descobriu que aquele afundamento no crânio era a cicatriz do trauma sofrido no local. Era o registro físico do lar onde o grito e a humilhação vinham disfarçados de “educação”, onde ela aprendeu que mentir era mais seguro do que dizer a verdade.

Você se lembra de ter mentido para se proteger na infância? E hoje? Você é um adulto regulado o suficiente para que sua criança seja honesta contigo, mesmo sabendo que fez algo indevido? Na sua casa, a verdade é um lugar de segurança ou de julgamento? As punições, quando necessárias, são adequadas ao tamanho do erro cometido? Se você respondeu “não” para alguma dessas perguntas, sugiro que repense e reavalie suas reações no momento em que seus pequenos te contam sobre os erros deles. Também pode chamar sua criança para conversar e perguntar como ela se sente quando precisa contar algo que a deixará numa posição desconfortável e, a partir da resposta dela, pensar em estratégias que reforcem a confiança entre vocês. Habitue-se a ouvir os argumentos dos seus filhos, permita-se mudar de ideia e de posicionamento. Nem sempre você vai concordar, mas, acredite, isso melhora muito a comunicação e o elo entre vocês.

Um lar rígido demais, com cobranças exageradas e pressão por perfeição, gera um alto nível de ansiedade. As crianças mentem como forma de fuga e proteção, porque não conseguem lidar com o sentimento de culpa e o medo de perder o amor dos pais. Mentem para não perder o vínculo, para não desapontar a família.

Semana passada, escrevi sobre os três Cs da bronca boa (contingência, coerência e consequência). Segundo o psiquiatra e educador Içami Tiba, broncas exageradas, fora do tom e desproporcionais ao deslize cometido afastam e não geram conexões saudáveis entre pais e filhos. Mentir não é falha no caráter da criança; ela ainda está em formação da personalidade. Também não estou dizendo para deixar mentir à vontade, não é isso. É preciso corrigir, sim, mas com tato. Lares onde contar a verdade significa risco de castigo físico, humilhação e dor emocional não proporcionam o crescimento da honestidade entre pais e filhos.

Quando a verdade encontra escuta, as crianças aprendem que não precisam se esconder atrás da mentira para se proteger. E talvez essa seja uma das maiores responsabilidades de quem educa: construir um lar onde a verdade, mesmo desconfortável, encontre um lugar seguro para existir. Crianças não aprendem a dizer a verdade apenas porque foram ensinadas que mentir é errado; elas aprendem quando percebem que podem errar sem perder o amor, o respeito e a dignidade dentro de casa.

Christiane Indaiá
Graduada em Letras – Português – Inglês – Literatura, UNIVALE – Universidade Vale do Rio Doce
Professora especialista em Língua Inglesa (24 anos de experiência em cursos livres e ensino fundamental I e II)
Experiência em preparatório para FCE Cambridge Exam
Certificada Cambridge
Pós-graduanda em Comunicação Assertiva pela PUC Minas

Fonte: https://24horasmt.com.br/artigos-e-colunas/mentira-infantil-onde-a-verdade-oferece-inseguranca-e-medo-a-mentira-sera-sempre-uma-opcao/

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