Casal que trabalha com empréstimos consignados revela práticas obscuras, fala em “lavagem de dinheiro”, venda de dados dentro da PM e acusa o Estado de fechar os olhos para um sistema viciado e lucrativo

Um jovem casal que atua na intermediação de empréstimos consignados abriu o jogo sobre um dos mercados mais lucrativos — e controversos — do país. Entre histórias de clientes endividados, juros disfarçados e falhas no controle estatal, o casal aponta o dedo para o Governo e denuncia:
“Tem muita coisa errada e ninguém quer ver. É dinheiro circulando demais, sem explicação.”
A rotina deles é a de centenas de agentes espalhados pelo Brasil, que vivem de captar servidores públicos — especialmente policiais e professores — em busca de crédito rápido.
“O policial é o que mais faz empréstimo. Ele mesmo procura. Já o pessoal da Seduc não entende nada de finanças”, relata o agente, que prefere não se identificar.
Um sistema que se retroalimenta
Os dois contam que o negócio movimenta milhões e que nem sempre o dinheiro tem origem limpa.
“Tem gente que pega 20 mil num mês e paga tudo no outro. De onde vem isso? Muitas vezes é lavagem de dinheiro ou agiotagem”, afirma a jovem. Segundo ela, há quem use os consignados com juros baixos — 2% ao mês — para emprestar “na rua” a juros altíssimos.
O casal denuncia ainda a existência de venda de listas com dados completos de servidores, prática que viola a Lei Geral de Proteção de Dados (LGPD).
“Tem servidor dentro do RH que vende lista com tudo — nome, CPF, salário, até dentro da Polícia Militar”, diz o agente.
Apesar das restrições, o acesso é fácil.
“Se quiser, eu acho seu nome em minutos. É só usar o portal do servidor e cruzar com sistemas pagos. A gente paga R$ 200 por mês pra ter acesso a tudo”, revelam.
‘A culpa é do governo’
Eles também criticam a omissão das autoridades.
“O Governo sabe que isso acontece, mas finge que não vê. É dinheiro girando, é imposto entrando. Todo mundo ganha — menos o servidor”, dispara o agente.
O casal cita o saque-aniversário do FGTS como outro exemplo de armadilha financeira disfarçada de benefício.
“Foi vendido como um presente no Governo Federal, mas é uma ferrada. O trabalhador perde o direito ao saque total se for demitido. E o governo ainda lucra com o dinheiro preso lá”, dizem.
Juros, refinanciamentos e a roda que nunca para
A conversa também revela um perfil de cliente cada vez mais viciado em crédito.
“O servidor gosta de dinheiro. Quer refinanciar logo, mesmo pagando mais juros. É um ciclo que nunca acaba”, afirmam.
Para eles, a engrenagem só continua girando porque há conivência, falta de fiscalização e muito interesse por trás.
“Tem banco que cobra 7%, mas segura a folha de pagamento do Estado. A Caixa Econômica e o PRB têm taxas boas, mas não deixam refinanciar rápido. Aí o cliente foge pra quem cobra mais, só pra continuar pegando empréstimo”, explicam.
Mercado bilionário e pouco transparente
O mercado de consignados e empréstimos com FGTS é bilionário, mas opera numa zona cinzenta. O casal reconhece que há vendedores sérios, mas admite que o sistema é tentador para o mau uso.
“Tem correspondente que vende errado, engana o cliente. A gente tenta fazer o certo, mas quem faz o errado ganha mais. O sistema favorece o erro”, desabafa.
Enquanto o Governo planeja novos modelos de crédito, o casal faz um alerta:
“Do jeito que está, vai só mudar o nome do problema. O dinheiro continua nas mesmas mãos. A diferença é que agora, o sistema tá de terno.”
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